O RESGATE DA UTOPIA (TRÊS VISÕES DO BRASIL)
Eliane de Alcântara Teixeira - USP
O mito do retorno a um lugar utópico e ideal, onde o homem vivesse em absoluto equilíbrio com a natureza, isento do pecado original, sempre existiu no inconsciente cultural da humanidade. Esse desejo pode ser notado desde os gregos que “recolheram a idéia, originária da noite dos tempos, de uma idade de ouro, durante a qual tudo crescia sem esforço, os animais domésticos e selvagens conviviam sem conflitos, os homens viviam em um clima de amizade e concórdia, em um regime de partilha total. Para eles, após um percurso atormentado através das sucessivas idades, os homens deviam retornar à idade primeira.”[1] Essa idéia é notada em várias culturas, de povos muito diferentes, ela manifesta-se em obras de arte e na literatura. Para o homem renascentista europeu, cuja cultura era impregnada pela fé cristã, essa idéia desenvolveu-se a partir das visões de Santa Perpétua e de seu jovem companheiro Saturus, que na véspera de sua execução, no ano de 203, em Cartago, têm a visão do Paraíso: “Viu, em sonhos, uma escada elevando-se até o céu, (...) chegou a um imenso jardim onde viu um pastor de cabelos brancos ordenhando suas ovelhas, cercado de ‘bem-aventuarados’.(...) contemplou um grande jardim ornado de loureiros rosa e de todos os tipos de flores; as árvores eram altas como ciprestes e suas folhas caíam continuamente.”[2]. No Renascimento essa idéia é retomada como uma nova percepção do mundo.
“Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”[3] É assim, com essa visão deslumbrada da nova terra, que Caminha encerra sua Carta, na qual tenta descrever a “Vossa Alteza” as grandezas desse mundo intocado. Mas esta é apenas uma das muitas observações que esta certidão de nascimento estabelece, pois vem repleta de outras tantas cheias de um entusiasmo que seu escrivão não consegue esconder.
Caminha, influenciado pelo espírito humanista muito forte na Europa no período das descobertas, descreve nesse documento uma terra encantadora e rica, um paraíso equivalente ao Éden, cheio de sua inocência e com gente tão pura que não ocultava suas “vergonhas”. Porém, fica muito evidente o esforço desse escrivão que, desde o início, relata o interesse dos homens dessa esquadra em buscar indícios da existência de metais preciosos, uma vez que, já nas primeiras laudas, na quinta, para sermos exatos, aparece o relato de uma “conversa” na qual os aborígenes parecem assentir a existência de ouro e prata em sua terra: “...um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.”[4] No entanto, esse interesse vai se diluir na descrição das deslumbrantes paisagens, das cores, da abundância e da graciosidade desse povo bárbaro, como veremos a seguir.
A começar da descrição da geografia, principalmente o rio que nessa baía vem desaguar, as praias e a vegetação. As águas constituem o habitat de vários espécimes, como se pode ver: “camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão grosso, como em nenhum tempo vi tamanho.”[5] São muitos frutos coloridos de árvores em abundância, e palmitos suculentos que os navegantes retiram de muitas palmas. A fauna resume-se a aves de colorido exuberante e que mais de uma vez despertaram a curiosidade do escrivão, que sobre elas diz: “Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece haverá muitos nessa terra. (...) Mas, segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!”[6] É de se notar o olhar maravilhado desse português que não deixou escapar esses pequenos, porém belos detalhes, e como sua imaginação percorre os sertões a procura de mais visões como se ele desejasse ver mais desse paraíso tropical, utopia edênica sonhada pelos pensadores humanistas do século XV. Nesse mundo onde “a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.”[7]
Segue-se a descrição dos habitantes pardos e nus e seus arcos e setas, alguns ornados de sombreiros de penas de aves de um colorido muito vivo. Os corpos tintos de vermelho e negro, os beiços perfurados, nos quais levavam ossos. A visão desses selvagens é descrita com entusiasmo, como no trecho a seguir: “Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. (...) E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.”[8]. Neste trecho, ficam bem claros o olhar maravilhado, o deleite que a imagem paradisíaca produz nesse cidadão do Porto, a utopia concretizada nas areias quentes de Porto Seguro, na Terra de Vera Cruz.
A visão paradisíaca do Brasil ainda em parte se mantém na obra de Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das grandezas do Brasil. Escrito no século XVII, esse texto, graças à influência do estilo barroco, exagera em todos os detalhes para dar um retrato paradisíaco do novo país. Observe-se o uso sistemático da hipérbole para louvar as belezas, as riquezas da terra: “porque a terra é disposta para se haver de fazer nela todas as agriculturas do mundo pela sua muita fertilidade, excelente clima, bons céus, disposição do seu temperamento, salutíferos ares, e outros mil atributos que se lhe ajuntam (...) o Brasil produz tanta quantidade de carnes domésticas e selváticas, que abunda tantas aves mansas, que se criam em casa, de toda a sorte, e outras infinitas que se acham pelos campos”[9]. No entanto, a utopia já começa a se desfazer pelo fato de a obra de Brandão já mostrar um viés crítico, no sentido de que o autor critica o colono que, por desleixo, não explora a contento as benesses que a nova terra oferece.
Essa visão edênica do Brasil, portanto, muda razoavelmente com o passar dos anos. Os rumos das histórias portuguesa e brasileira transformam a distância continental num abismo. Em alguns séculos, metrópole e ex-colônia tornam-se quase desconhecidas e as diferenças entre elas são brutais, não há entre portugueses e brasileiros o reconhecimento de um parentesco que deveria uni-los. Os brasileiros órfãos não reconhecem identidade por esta terra e não possuem uma tradição que os mantenha autênticos; o que resta a eles é uma mistura de raças e credos unidos ao acaso ditado pela necessidade histórica. Por sua vez, os portugueses não sentem por este povo qualquer afinidade e cada vez mais vêem a terra como lugar de exploração e enriquecimento fácil. Haja vista os ciclos de exploração do Brasil que priorizavam o extrativismo e não mostravam nenhuma preocupação com a efetiva formação de uma sociedade brasileira, com infra-estrutura cultural e educacional, por exemplo. Por muito tempo, os jovens brasileiros completavam seus estudos em universidades portuguesas; nossos famosos românticos, por exemplo, iam cursar Direito em Coimbra.... Somente com a vinda de D. João VI ao Brasil, fugindo da invasão napoleônica, é que se pensou em criar uma estrutura mínima para o país hospedar o rei: criou-se a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, o Banco do Brasil, abriram-se os portos etc.
Voltando aos ciclos de exploração, esse sistema de colonização estava extremamente preocupado com a manutenção do Império Português e resume-se em três: o ciclo do pau-brasil, do qual herdamos o nome e que se iniciou logo após a descoberta; o ciclo da cana-de-açúcar, que teve vez no Nordeste, aproveitando bem o tipo de solo e clima, e que teve início em meados do século XVI; e o ciclo do ouro, centralizado em Minas Gerais, por todo o século XVIII. Foi apenas a partir de 1530 que os portugueses começam efetivamente o processo de colonização, sobretudo preocupados com invasões provindas de outros países europeus, principalmente a França e também na esperança de cobrir as despesas que as colônias da Ásia provocavam. Os portugueses resolvem manter núcleos fixos de colonização na América e inicia-se assim a extração do pau-brasil, o primeiro ciclo de exploração. Esse processo durou até a quase extinção dessa árvore e com o início do plantio de cana-de-açúcar que se adaptava muito bem ao solo e ao clima da região tropical. Esse segundo ciclo traz algumas novidades em relação ao primeiro, novidades estas que vão alterar definitivamente a formação do povo brasileiro, a mais importante nesse aspecto foi a utilização do trabalho escravo. O negro será a terceira raça a se misturar na formação do brasileiro. A princípio, o plantio da cana-de-açúcar era feito em toda a faixa litorânea, e ali se concentraram os povoados, mas como o português sempre se interessou em encontrar ouro, como os espanhóis, foram caminhando cada vez mais para o interior do país, e foram inúmeras as expedições. Nos últimos anos do século XVII, inicia-se o terceiro ciclo, pois finalmente o ouro foi encontrado numa região hoje conhecida como Minas Gerais, especialmente numa localidade batizada como Vila Rica, atual Ouro Preto. Uma verdadeira corrida para a exploração desse metal precioso inicia-se e aventureiros vêm de toda parte, inclusive da Europa. Vila Rica desenvolve-se como importante centro econômico e cultural, contando com uma Academia, com o teatro da Ópera e com um seleto grupo de poetas, entre os quais se destacam Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Silva Alvarenga etc.
Esses ciclos são definitivos para entendermos como se formou essa mentalidade predatória por parte do colonizador, o que tem como conseqüência a absoluta falta de respeito do brasileiro pelo seu próprio passado. Pouco a pouco, cria-se uma imagem do Brasil, nada otimista, de um povo sem lei, nem destino ou religião, um lugar de enriquecimento fácil provocado pelas leis frouxas.
Este aspecto é bastante flagrante na literatura do século XIX, quando surge um tipo bem característico na literatura do período, o “brasileiro”, ou seja, o português que elege o Brasil como local sem lei para fazer fortuna fácil. Eça de Queirós costumava comentar que a figura do “brasileiro” era muito comum em novelas, em dramas e poemas, e que o Romantismo usava desse tipo como a encarnação da sandice e da materialidade. Um dos autores que melhor tratou desse tema foi Camilo Castelo Branco. Personagens alcunhadas de “brasileiros” e que nada mais são do que portugueses que, fugindo de dívidas, muitas vezes, recorrem ao Brasil para enriquecer e voltar cheios de dinheiro, retornam à terra natal, onde compram títulos honoríficos, são descritas com muita ironia e desprezo. Em duas novelas de Camilo Castelo Branco, o brasileiro já aparece no título – são os casos de A Brasileira de Prazins e de Os Brilhantes do Brasileiro. Mas é em A Corja e Eusébio Macário que estas personagens ganham contornos mais nítidos.
Na primeira, de título bastante sugestivo, existe a descrição de um certo senhor Arara, dado o colorido de seus trajes. Este senhor Arara é um “brasileiro” que Camilo nos apresenta assim: “Chegava a caleche descoberta dum brasileiro purpurino, coruscante de cores arreliosas, oftálmicas, delirantes, duma garridice espaventosa. Era o Arara, triunfador daqueles tempos em que a casaca azul e o colete amarelo não dispensavam uma gravata vermelha, luvas verdes e calças cor de alecrim com polainas cinzentas. O Arara, a quem outros chamavam o Lâmpada, conheceu o Trigueiros, mandou parar, apeou-se, viu-o muito desmaiado, e perguntou-lhe o que tinha, se estava incomodado.”[10] Note-se que até nas cores das roupas essa personagem lembra as da bandeira nacional do Brasil, com exceção do vermelho e do cinza. São as mesmas cores exuberantes vistas na Carta, porém há uma boa dose de ironia nessa descrição.
Em Eusébio Macário, a exploração desse tipo é maior. Há nela uma personagem de nome Bento José Pereira Montalegre, um “brasileiro” que se associara a um comendador, o Comendador Borges que fugira de Portugal por ter roubado um porco, e que mandava buscar a irmã a fim de arranjar-lhe um bom casamento. Depois de alguns anos morando no Brasil, esse brasileiro também recebe a sua comenda, a insinuar que, no Brasil, quem tem dinheiro compra títulos, compra terras, compra bons casamentos, compra mulher, compra tudo que lhe convém. Sobre o enriquecimento desse brasileiro, conta-nos o narrador: “O comendador cravava-lhe os olhos quebrados, lânguidos, e espreguiçava-se. Comidas fortes, muito adubadas, recozidas no vinho palhete, punham-lhe no sangue irritações juvenis, ímpetos. Tinha engordado aos vinte e cinco anos, na pacatez das roças, embalado em redes debaixo da mangueiras; fôra fleumático, frio, esquivo às borrascas do amor. Nenhuma sinhá o extraviara da linha tortuosa da riqueza; vendera-se a uma viúva decrépita, rica e devassa, que lhe deixara moagens, fazendas, o casco da sua fortuna.”[11] Numa conversa com Eusébio, o comendador comenta que “No Brasil também não há religião – observou circunspecto o comendador com arrastada melopéia – e mau é, porque a religião mi párece précisa para o povo; quem tem conhecimentos lhi basta sòmentes a religião natural, hem? mas quem não tem conhecimentos lhi faz préciso um freio.”[12] Para a personagem, além de ignorante, o povo brasileiro carece de fé, e a religião surge-lhe somente como um instrumento de domínio do vulgo.
O próprio Eça, em uma de suas mais famosas personagens, encarna o brasileiro. Essa personagem é Basílio do célebre romance O Primo Basílio. Desde o início da obra, essa personagem é descrita como um tipo amante do dinheiro e da vida social da alta classe, “alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido (...) tinha voltado então da Inglaterra: vinha muito bife, usava gravatas escarlates passadas num anel de ouro, fatos de flanela branca”[13], um verdadeiro janota. Mas sua vida muda totalmente com a falência da firma Bastos & Brito. Basílio, agora pobre, parte para o Brasil a fim de remediar sua trágica situação e, dessa maneira, dá fim ao namoro, fato que muito entristece Luísa. Em dado momento da narrativa, a personagem Sebastião faz uma interessante descrição de Basílio:
Sebastião não conhecia Basílio pessoalmente, mas sabia a crônica da sua mocidade. Não havia nela certamente, nem escândalo excepcional, nem romance pungente. Basílio tinha sido apenas um pândego e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta: - partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipóia despedaçada num sábado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Colares nas tavernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atônita dum polícia; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do entrudo. (...) Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido: ouvira que ele tinha ido para o Brasil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, numa especulação, no Paraguai; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fora um trabalhador; e supunha que a posse da fortuna para ele, seria apenas um desenvolvimento dos vícios.[14]
Observa-se, assim, o caráter pejorativo da palavra “brasileiro” para os portugueses, para eles, apenas os mais desqualificados ou em falta com as leis portuguesas poderiam ir para o Brasil, e se retornassem ricos, certamente essa riqueza era fruto de negócios escusos.
Ao retornar, desta feita muito rico, Basílio faz diversas observações sobre o Brasil, especialmente sobre a Bahia e o grande calor que lá fazia, e sobre os costumes de seu povo. Em conversa com Luísa ao ser inquirido sobre o Brasil, Basílio comenta “Um horror! Até fizera a corte a uma mulata!”[15], mas acrescenta que o caso não era nada sério, pois a mulher não passava de uma mulata. Essas observações demonstram o seu racismo, e principalmente à mulher, que, devido à origem racial, é considerada imprestável para o casamento, para a constituição de uma família nos moldes da cultura portuguesa. Essa falta de complacência para com a terra que lhe permitiu enriquecer mostra bem o caráter desse novo rico, seus valores. Para Basílio, o Brasil não serve para nada, a não ser como um degrau na escada para subir na vida. Esse é o quadro que nos demonstra a literatura do século XIX, através de alguns personagens, sobre a visão que o português tem do Brasil e de seu povo.
No século XX, a visão do português da terra brasileira sofre radical transformação. Novamente, são os rumos da História que interferem nas relações entre esses dois países. Reconhecidamente, o Brasil ocupa lugar de destaque entre os países de terceiro mundo, com um tímido desenvolvimento, após longos períodos de repressão ou desorientação. Apesar da pesada dívida externa, o país conseguiu melhorar as condições de vida de seu povo e diminuir infimamente a pobreza. Os problemas são muito graves, porém a população, neste século, e principalmente nas últimas décadas, tem tido acesso a tecnologias antes nem imaginadas. Por outro lado, Portugal passou por sérios problemas políticos e administrativos, que levaram o país a uma situação bastante inferior em relação aos países europeus. Portugal, em termos econômicos, tornou-se um apêndice da Europa, visto com olhares desconfiados, e até, preconceituosos.
Os autores portugueses parecem assumir uma postura de mea culpa em relação ao Brasil, como se lamentassem a visão preconceituosa do português, fruto da mentalidade exploratória, presente, inclusive, entre os “brasileiros”. Esse é o caso, por exemplo, de alguns romances do neo-realismo, que sofrem a influência nítida do regionalismo brasileiro. Já na modernidade, nos romances de Almeida Faria, como em Cavaleiro Andante, por exemplo, verifica-se uma visão mais otimista da terra brasileira, concebida como o espaço do novo. Saramago, por sua vez, intensifica essa recuperação da imagem do Brasil no romance A Jangada de Pedra, em que se nota, de certo modo, a retomada da utopia inicial.
Nesse romance, a Península Ibérica, por um motivo desconhecido, separa-se do continente europeu e começa a flutuar em direção da América. Mais tarde, o rumo dessa enorme jangada é confirmado, ela vai em direção à América Latina: “nunca os Estados Unidos”.. Essa insólita viagem em direção ao terceiro mundo não ocorre ingenuamente, está claro que Saramago pretende insinuar uma aproximação ideológica, até mesmo, política entre países antes antagônicos. Isso pode ser observado nesse trecho no final do romance: “Um dos conselheiros observou então que o novo rumo, vistas bem as coisas, não era assim tão mau, Eles estão a descer entre a África e a América Latina, senhor presidente, Sim, o rumo pode trazer benefícios, mas também pode agravar as indisciplinas da região, e talvez por causa desta lembrança irritante, o presidente deu um soco na mesa que fez saltar o sorridente retrato da primeira dama.”[16]. Como se vê, Saramago parece querer irmanar Portugal à América Latina, ipso facto, ao Brasil, compondo uma grande utopia, qual seja, a da integração dos países avessos ao mundo do Grande Capitalismo.
BRANCO, Camilo Castelo. A Corja in Obra Seleta. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960.
_____. Eusébio Macário in Obra Seleta. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960.
CAMINHA, Pero Vaz. Carta, edição crítica de Jaime Cortesão, /Lisboa/, Imprensa Nacional Casa da Moeda, /1994/.
MAGASICH-AIROLA, Jorge & BEER, Jean-Marc. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o paraíso. Trad. Regina Vasconcelos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira através dos Textos. 19. ed. São Paulo: Cultrix, 1996.
QUEIRÓS, Eça. O Primo Basílio, São Paulo: FTD, 1994.
SARAMAGO, José. A Jangada de Pedra. 4. ed. Lisboa: Caminho, 1986.
[1] Jorge MAGASICH-AIROLA & Jean-Marc de BEER. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o paraíso. Trad. Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 37.
[2] Idem, Ibidem, p. 40-1.
[3] Pero Vaz de CAMINHA. Carta, edição crítica de Jaime Cortesão, /Lisboa/, Imprensa Nacional Casa da Moeda, /1994/, p. 174.
[4] Pero Vaz de CAMINHA, opus cit., p.159.
[5] Idem, ibidem., p. 163.
[6] Idem, ibidem, p. 168-9.
[7] Idem, ibidem, p. 173.
[8] Idem ibidem, p. 161.
[9] Apud Massaud MOISÉS, A Literatura Brasileira através dos Textos, 19. ed., São Paulo, Cultrix, 1996, p. 58.
[10] Camilo Castelo BRANCO. A Corja. In: Obra Seleta. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960, p. 698.
[11] Idem. Eusébio Macário. In: Obra Seleta. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960, p. 625-6.
[12] Idem, ibidem, p. 621.
[13] Eça de QUEIRÓS. O Primo Basílio. São Paulo: FTD, 1994, p. 22.
[14] Idem, ibidem, p.112-3.
[15] Idem, ibidem, p. 66.
[16] José SARAMAGO. A Jangada de Pedra. 4. ed. Lisboa: Caminho, 1986, p. 322.